Quem se beneficia da abolição da categoria “mãe” quando a maternidade é compulsória?

Temos que levar em consideração que mulheres podem ir para a cadeia por aborto e até perda gestacional

Uma socióloga brasileira, em sua conta verificada no Twitter, postou no dia 25 de junho de 2020 que a categoria “mãe” deve ser abolida do vocabulário para ser inclusiva com as pessoas transidentificadas que nasceram fêmeas. Segundo ela, a categoria “mãe” é “a pior escolha possível” para abordar os temas gravidez, parto, puerpério e amamentação “por um viés feminista”.

Ela segue dizendo que “mãe” é uma palavra “conservadora”, “excludente” e que “só atrapalha”, além de afirmar que dizer “feminismo/ativismo materno” também cairiam na mesma problemática.

“A categoria “mãe” é a pior escolha possível se queremos abordar gravidez, parto, puerpério e amamentação por um viés feminista. Tipo ruinzona mesmo. Conservadora. Excludente. Só atrapalha. A ideia de “feminismo materno” é horrível também por isso.”

A acadêmica, que é socióloga e colabora para um instituto de psicanálise, segundo a sua descrição no Twitter, afirma que usar a palavra mãe é uma “escolha cisnormativa e transfóbica” e que isso, por si só, deveria ser razão suficiente para o seu uso ser rejeitado, alegando que não existe “feminismo transinclusivo que continue usando ‘mãe’ como categoria central” para se falar de maternidade.

Na sua opinião, a língua portuguesa não precisa nem ser adaptada para abolir as categorias “mãe” e “maternidade” para se falar das funções biológicas das fêmeas humanas em relação à reprodução, isto é, à capacidade de gestar do corpo feminino. Ela cita as palavras “gestante”, “parturiente” e “lactante” como já sendo “palavras de linguagem neutra” e que, para incluir a todas que possuem a capacidade de gestar, devem-se usar os artigos referentes a cada situação — portanto, a/o/e gestante/parturiente/lactante, sendo “a” para mulheres, “o” para homens trans, concluindo que existe um artigo “e” para pessoas não binárias, nascidas no sexo feminino, que possuem capacidade de gestar. Ela ainda exige que palavras que não são “neutras” sejam flexionadas como “puérpera/puérpero/puérpere”.

Para ela, a categoria “mãe” ainda “seria péssima” para falar de maternidade. Como argumentos, ela escreve que associar maternidade ao combo “mãe” significa “excluir e marginalizar a diversidade que existe na parentalidade e nos processos de gravidez, parto, puerpério e amamentação de pessoas” a quem ela chama de “cis”.

Sua tentativa de ser inclusiva exclui e apaga as mulheres e as mães quando afirma que a palavra “mãe” excluiria mulheres que sofreram perda gestacional, as que gestaram e pariram mas não amamentam, as que amamentam mas não gestaram ou pariram, as mulheres que tiveram que recorrer à prática da barriga de aluguel (que gestaram, mas não seriam “mães” da criança, em sua análise), as mulheres que adotaram e portanto não gestaram, pariram ou amamentaram. Ela também afirma que o uso da categoria “mãe” é nocivo ao feminismo porque “ninguém ‘nasce’ mãe ao parir, torna-se, ou seja, gestar/parir não torna ninguém automaticamente mãe”.

Não é a primeira vez que até mesmo a esquerda critica a socióloga por opiniões polêmicas. Segundo ela própria diz em um artigo no Medium, ela não esperava ser “atacada” por pessoas “revolucionárias, socialistas e/ou marxistas”, onde sua fala em um post no Facebook foi criticada por defender o caso de um ator pornô que tem aparência infantil e que, por isso, se especializou em “pornografia com a temática da pedofilia”, alegando ser apenas uma luta por “autonomia sexual”.

Feministas materialistas e radicais estão alertando há anos para a ligação da teoria queer com a pedofilia. O artigo “Sexualizar o corpo de meninas é uma das intenções do patriarcado” procura explicar como a pedofilia é uma ferramenta de controle dos corpos femininos.

Existe uma esquerda adepta das políticas identitárias, em que “identidades”, principalmente a “identidade de gênero”, atropelam qualquer outra análise da realidade material, principalmente a análise das três opressões estruturais nas quais as sociedades contemporâneas estão organizadas: sexo (machismo/sexismo/misoginia), raça e classe social.

Quando a autora do tuíte diz, finalizando seu post, que não “adianta fazer discursinho de inclusão” e que é “feminismo pela metade se a gente não abolir o discurso e as formas de análise que causam a exclusão”, ela apaga a opressão estrutural a que todas as mulheres estão sujeitas. As mulheres que se tornam mães não são uma classe opressora de homens trans, como a autora afirma. As mulheres que se tornam mães — em uma sociedade patriarcal onde a maternidade é compulsória e pouquíssimos países permitem aborto, e até mesmo uma perda gestacional pode levar mulheres para a cadeia — são a parte mais frágil de toda sociedade onde homens governam sobre os corpos das mulheres.

Há um conflito irreconciliável entre as pautas das pessoas transidentificadas e a pauta das mulheres. A definição do que é ser uma mulher não pode ser mudada para “qualquer pessoa que se identifique como uma mulher”. As mulheres sofrem discriminação em sistemas patriarcais por nascerem fêmeas. São os corpos femininos os que podem gestar. E a nossa capacidade reprodutiva é explorada pelo patriarcado. Identidade de gênero não impede menstruação, atrofia vaginal após uso contínuo de terapia hormonal com testosterona ou gravidez. Ninguém nasce no corpo errado. Mas nascemos em sociedades que impõem estereótipos nocivos aos dois sexos. Temos que abolir os estereótipos.

Gallus Mag, uma blogueira feminista, compilou os principais pontos sobre o conflito de interesses entre as pautas transativistas e a pauta feminista:

1. Remoção do direito legal das mulheres de se organizar politicamente contra a opressão baseada no sexo por homens.

2. Remoção do direito legal da mulher de se reunir fora da presença de homens.

3. Remoção do direito legal da mulher a programas educacionais criados para mulheres sem a presença de homens.

4. Eliminar a coleta de dados de desigualdades baseadas em sexo em áreas onde as mulheres estão sub-representadas.

5. Eliminação de estatísticas de crimes com base no sexo.

6. Eliminação de programas esportivos e competição esportiva para mulheres e meninas.

7. Remover o direito legal das mulheres de serem livres da presença de homens em áreas de alojamento público onde ocorra nudez.

8. Eliminação de doações, bolsas de estudos, designações de conselhos e administradores, cargos representativos e programas afirmativos para mulheres.

9. Remoção do direito legal das mulheres de criar clínicas de reprodução, apoio para vítimas de estupro, grupos de apoio ou quaisquer organizações para mulheres.

10. Eliminar todo discurso público e mídias específicos para as mulheres (chamar mulheres de menstruadores, portadores de útero, abolir a categoria mãe).

11. Remoção do direito dos jornalistas de denunciar o sexo e o histórico de pessoas que cometeram crimes.

12. Eliminar o direito legal das lésbicas de se reunir publicamente.

13. Eliminação de organizações específicas de lésbicas e grupos de defesa.

14. Remoção do direito legal da mulher à liberdade de expressão relacionada a papéis sexuais e gênero.

15. Eliminação do direito legal das mulheres à proteção contra os papéis sexuais impostos pelo Estado (aparência / comportamento / pensamento).

16. Eliminação do direito legal das meninas à proteção contra os papéis sexuais aplicados pelo Estado na educação pública.

17. Eliminação do direito das pacientes do sexo feminino de terem acompanhantes do sexo feminino em hospitais ou alas separadas de pessoas do sexo masculino.

18. Eliminação do direito das mulheres de preferir prestadoras do sexo feminino para as suas necessidades íntimas de cuidados pessoais.

19. Eliminação do direito humano das mulheres presas sob confinamento estatal a serem alojadas separadamente dos homens presos.

20. Diferentemente de qualquer outro movimento de justiça social na história, o impulso contemporâneo por “Direitos Transgêneros” (**como está sendo realizado atualmente) é único, pois se baseia na eliminação dos direitos e proteções sexuais das mulheres e meninas.

As mulheres e as cuidadoras de mulheres nos processos de gravidez, parto, puerpério e amamentação não precisam rever, como disse a acadêmica, “o léxico e as categorias” sobre esses processos porque não é o uso das categorias “mãe” e “maternidade” que está oprimindo homens trans e pessoas nascidas fêmea que se identificam como não binárias e gestam. O “impacto político” sobre pessoas trans e não binárias a que a socióloga se refere não é causado por chamar mães de mães. É a sociedade patriarcal e suas instituições que violam e negam autonomia aos corpos femininos — seja qual for a forma como essas fêmeas humanas se identifiquem.

Jornalista, blogueira, poetisa, feminista, amante de antropologia e professora primaria que pratica desescolarizacao

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